A revista "Crónica Desportiva" no seu número 47 publicada no dia 30 de Março de 1958
(custava 3$00) continha uma entrevista com o título "A história de António Pedro"
Eis aqui na integra o texto e as imagens dessa reportagem.
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  1. Esta é a história original de um jogador de carreira invulgar, senão única.
  2. A noite em que se decidiu a sua transferencia foi passada em claro, em discutir-se a diferença de uns pares de contos de reis.
    Inclusivé foi inspeccionado pelo médico do Caldas às 3 horas da madrugada !
  3. Jogou já nas três divisões da A.F.Lisboa e nas três divisões nacionais, o que deve de constituir um "record" extraordinário !
  4. Desde 1949 que só falhou quatro desafios !
  5. Disputou no mesmo dia três desafios de futebol !
  6. Podia ser jogador do Sporting se... !
  7. Esta autobiografia o elucidará e lhe mostrará que em cada atleta há uma história diferente para contar !

O jogador que geralmente mais se distingue na equipa do Caldas é o António Pedro, o médio ou interior recuado, de infatigável labor, sempre curvado para a bola, parecendo não ver mais nada em redor... raramente falhando um passe...
António Pedro da Silva, nasceu em Vila Franca de Xira em 29 de Outubro de 1928. Foi nessa vila tão pitoresca que nasceu também para o mundo do futebol.
Seu pai - homem do campo - nunca fizera ideia que o seu petiz viesse a ser tão falado por jogar à bola
Aliás os dois filhos, pois o António Pedro tem um irmão mais velho, que também jogou futebol, mas já retirado da actividade - o José Manuel que alinhou no Bombarral e no Juventude das Caldas.
(já é tradição da família ligar-se às Caldas da Rainha)
Demos porém a palavra a António Pedro, para nos descrever a sua meninice:
- Na minha escola havia como em tantas outras os "benficas" e os "sportings". Eu alinhava pelos "encarnados", era mesmo um benfiquista ferrenho.
Reuniamo-nos e combináva-mos os nossos jogos com outros rapazes.
- Dispunham de equipamentos?
- Não, era tudo brincadeira, embora imitássemos o mais possível os jogadores a sério. Os nossos cartões de jogadores eram feitos por nós e as transferências custavam uns tantos tostões consoante o valor do "futebolista"
- Além de António Pedro, algum dos jogadores do "Adro" veio a distinguir-se no futebol?
- Não, infelizmente três dos nossos melhores jogadores nunca puderam jogar oficialmente. Dois deles, o Henrique "Renego" e o meu primo José Pedro, faleceram antes dos 17 anos, e um que revelava muita habilidade para guarda-redes, perdeu um braço num desastre de comboio.

Fui eu o que mais sorte teve, pois não só pude seguir a carreira de futebolista, que todos nós sonhávamos, como também atingi um plano razoável, que me permite jogar com os mais consagrados "ídolos"...
- E muitas vezes ombrear com eles... observá-mos !
- Por volta dos meus 13 anos comecei a aprender o ofício de carpinteiro - continuou António Pedro.
- O tempo passou a rarear, que eu saía tarde da oficina !
Dissertando com facilidade, prosseguiu:
- Passei a frequentar o campo do Operário Vilafranquense e sempre que podia, assitia aos treinos.
- Assistia só? Por que não participava também?
- Como era muito pequeno não me deixavam jogar. Não acreditavam no meu físico...
E acrescentou:
- Era difícil reunir 22 jogadores, pelo que o grupo treinador era muitas vezes constituido por sócios, que nem se equipavam sequer. Até que um dia faltou um e...
- Entrou em cena o António Pedro...
- Exactamente. Puseram-me à defesa, que não era o meu forte, mas o que eu queria era jogar... o certo é que no final do encontro, o director sr. Zarco Câncio (que era também treinador) convidou-me a aparecer mais vezes.
Prossegiu:
- Enquanto não fiz 17 anos limitei-me a treinar. Ainda se tentou obter autorização superior para começar a jogar com 16 anos, mas o pedido não foi deferido.

- Recorda-se da sua estreia oficial?
- Muito bem ! Não foi de esquecer !
- Porquê?
- Em primeiro lugar foi contra os júniores do clube rival, o Águia de Vila Franca...
Calcule-se a minha alegria: esperar três anos por este dia e logo calhar o adversário desejado...
E prosseguiu:
- Joguei a interior e marquei um golo... que me custou um olho negro !
- Bateram-lhe?
Sem querer, um adversário ao tentar aliviar, com um pontapé "de bicicleta" apanhou-me a vista, quando meti a cabeça à bola para marcar o golo...
- De modo que deve ter recebido os abraços de felicitações a ver estrelas...
António Pedro riu-se e concordou prosseguindo:
- Zarco Câncio "puxou" por mim, e realmente a ele devo muito do que sei. Outra pessoa que também muito fez para atingir o plano razoável de jogador, foi o Catinana, avançado-centro veterano, antigo jogador do Atlético, que muito me ensinou, não só em matéria de futebol, como caminhar na vida.
Na minha segunda época de júnior cometi um erro que não aconselho a ninguém:
Às 11 horas disputei um jogo oficial de júniores, em que marquei dois golos. Depois fui almoçar e a seguir, voltei ao campo para assistir a um jogo da "reserva"
Faltava um jogador e pediram-me para jogar, o que aceitei logo marcando por sinal um tento...
Acabado o jogo, vimos que faltavam dois jogadores para o desafio principal com o Trafaria.
Eu e um outro colega tornámos a alinhar, eu pela terceira vez nesse dia !
- Mas isso foi um exagero condenável... não pudemos deixar de observar.
- Pois foi, mas quando se é júnior, aproveitam-se todas as "deixas" sem olhar a consequências...
E prosseguiu:
A um quarto de hora do fim, mandaram-me embora, que eu já não podia mais...
Estive três dias de cama tal o cansaço que apanhei !
A narrativa prossegue:
Precisamente no dia em que fiz 19 anos estreei-me oficialmente no primeiro "team" do Operário Vilafranquense, e uma vez mais o adversário foi o Águia...
- Boa estreia?
- Estupenda. Ganhámos por 6-1 e marquei um golo.
Nunca mais saí até ir para o Caldas.
António Pedro elucidou-nos depois:
- Em 1949-50, o nosso clube deixou a A.F.Santarem para ingressar na Associação de Lisboa.
Tivemos que começar pela III Divisão distrital e foi uma razia !
- Porquê?
- Fomos passando de Divisão para Divisão, sempre a ganhar. Por fim, num jogo de passagem em Carcavelos, batemos o Parede por 12-1 e ganhámos o direito de passagem à III Divisão Nacional.
Referiu a propósito:
- Devo ser senhor de um "record" invulgar senão único:
Joguei em 7 divisões: júnior, distrito de Santarem, I, II, e III Divisões da A.F.Lisboa, III, II, e I Divisões nacionais, as últimas pelo Caldas.

António Pedro referiu depois desenvolvidamente, que o pitoresco o justificava, a história da sua transferência do Operário Vilafranquense para o Caldas:
- Creio que a "coisa" começouna final que disputámos em Pombal, com a Ovarense.
Reinaldo Matos, árbito da A.F.Leiria e antigo jogador do Operário Vilafranquense, e que fixara residencia em Caldas da Rainha, assistiu a esse jogo.
Falou com o sr Félix Dias também vilafranquense, estabelecido em Caldas da Rainha, e director do meu actua clube. Ele e outros colegas deslocaram-se a Vila Franca de Xira para negociarem a minha "carta de desobrigação"
- Você ficou entusiasmado com a ideia, não?
- Confesso que não. Tinha até certo medo de me arrepender. É bom notar que o Caldas nessa altura era também da III Divisão nacional.
E prosseguiu:
- A reunião entre os directores dos dois clubes começou à meia-noite na sede do Operário, e acabou às 3 e meia da manhã na rua... O Operário pretendia 20 contos pela "carta" e o Caldas dava 10.
- E quanto para o António Pedro?
- Nada ! Arranjaram-me emprego que me rendia 1.200$00 por mês e mais 500$00 de subvenção como jogador... Sempre era melhor que no Operário onde era praticamente amador.
- Bem, e depois como ficou resolvida a questão?
- Não chegaram a acordo, mas já na rua, o sr. Manuel José Branco, comerciante em Caldas da Rainha, resolveu dar mais 2.500$00 e os directores do Operário acederam finalmente !
- Creio que o meu aspecto franzino não os tranquilizava muito, pois pediram ao dr, João Vieira Pereira, médico caldense para me inpeccionar.
- Às 3 da madrugada?
- É verdade ! Fui dado por "apurado para o serviço" e nessa mesma noite parti para Caldas, onde chegámos às 6 horas da manhã.
- Sorriu divertido, quando evocou:
- Contou-me o dr. Viera Pereira que se deslocara a Vila Franca dizendo à sua esposa que ía assistir um parto difícil. E algum tempo depois, quando ambos assistiam a um jogo do Caldas, disse apontando para mim:
- Lembras-te que no mês passado saí de madrugada para assitir a um parto difícil?
Pois o "miúdo" é aquele que anda ali a jogar, com o nº 8
Estreei-me no mesmo dia em que o fez também o Anacleto, que vinha do Sporting. Somos até os dois jogadores mais antigos do Caldas, elucidou-nos António Pedro, que acrescentou ainda:
- Foi em Alcobaça e por sinal perdemos 6-1... O inverso da minha estreia no Operário Vilafranquense.
- Deu-se sempre bem no Caldas? inquirimos.
- O ambiente foi sempre muito simpatico, mas a equipa, francamente, é que jogava pouco.
O nível de futebol era até pior que no Operário...
- E continuou:
- Depois, com a vinda de Mariano Amaro, melhorou bastante. Passou-se a jogar mais rasteiro, o que favorecia as minhas caracteristicas. A vinda posterior de Fernando Vaz e o reforço de alguns jogadores, acabou por dar um padrão de jogo que não envergonha na I Divisão.
- António Pedro revelou-nos depois:
- Um ano depois de estar no Caldas (tinha eu 23 anos) fui pretendido pelo Sporting. Cheguei a treinar lá durante um mês.
- Como se passaram as coisas?
Segundo me contaram, foi o sr capitão Maia de Loureiro, que assistiu às finais da III Divisão, que falou de mim elogiosamente, no Sporting. Directores deste clube pediram ao sr Artur Capristano para me dar autorização para treinar em Alvalade.
- E não ficou porquê?
- Creio que não convenci o sr Álvaro Cardozo (treinador do Sporting nessa altura)
Davam-me o ordenado de "reserva" (1.200$00) e não me garantiam emprego, nem me davam "luvas" preferi ficar no Caldas.
- Nunca mais o chamaram?
- Não. Do Sporting de Braga, no ano seguinte, é que recebi uma proposta tentadora; 75 contos de "luvas", mas nessa altura já o Caldas não me deixou sair.
- Falou-se também no Benfica... lembrámos
- Simples conversações. Também fui sondado pelo Belenenses, mas o Caldas na I Divisão, não queria deixar-me sair facilmente. Por outro lado também melhorei muito a minha situação, empregando-me na Câmara Municipal, num lugar que poderá ser de melhor futuro, quando deixar de jogar futebol.
António Pedro recordou-se então:
- Também tive uma proposta para ir pa Luanda. Um tio meu, que acompanhou o Ferroviário de Luanda, na sua digressão à Metrópole, convidou-me a seguir com ele.
Poderia ter um bom emprego nos Caminhos de Ferro de Luanda.
- Nõ aceitou...
- Depois de muito pensar, resolvi continuar cá. Sabe, criei raízes em Caldas da Rainha.
Todos têm sido muito atenciosos para comigo.
- E referiu:
- Já me promoveram uma festa de homenagem, como prémio da minha dedicação ao clube.
Não tenho razão de queixa, pelo contrário, do Caldas e da sua gente.
Atento em reproduzir os passos mais interessantes da sua biografia, António Pedro enumerou a seguir:
- Desde 1949 no Operário ou no Caldas, só deixei de alinhar 4 vezes.
- Pode explicar?
- Duas por saber demais. Dei uma lição a um árbito sobre a lei do "ofside" e apanhei um jogo de castigo. Tinha passado a bola de diante para trás, dando azo a que um colega marcasse um tento "limpo" legalíssimo, como se compreende...
- E prosseguiu:
- O segundo jogo foi também por discutir um "ofside" Dessa vez fui mesmo expulso.
- As outras facetas, a que se ficaram devendo?
- Doença. Apanhei uma bolada em Viseu que me deixou muito abalado. Um adversário chutou a bola, para mais molhada, pesadíssima. Evitei o golo com a cabeça, mas fiquei amnésico durante duas horas.
Acrescentou sorrindo:
- Fiquei em tal estado, com a cabeça a arder, que eu, não sabendo nadar, quiz lançar-me a um tanque cheio de água... O médico não viu inconveniente em continuar a jogar, mas preveniu que deviam falar comigo, para ver se eu tinha noção das coisas.
- E tinha?
- Não muita. O Wilson é que andava atrás de mim a mostrar-me a cor da camisola e a dizer para não jogar contra a minha equipa.
Revelou também:
- Outro pormenor curioso da minha carreira é o caso de já ter sido duas vezes finalista da III divisão e uma da II, ficando sempre em 2º lugar, isto é, subcampeão nacional.
António Pedro referiu, de relance a chamada aos treinos da selecção nacional, que o encheu de satisfação, mas que não teve continuidade.
E falando dos lugares que costuma ocupar na equipa do Caldas, opiniou:
- Sem dúvida, prefiro jogar a médio. Mas reconheço que sou mais útil a interior, dado o sistema de jogo do Caldas, que não pode ser muito ofensivo. Assim jogo a interior em jeito de médio...
- Confessou ainda a sua satisfação por ser o "capitão" do grupo caldense e quando lhe perguntámos quantas épocas projeta ainda jogar, disse-nos:
- Tenho 29 anos e julgo que poderei jogar até aos 33. Mais quatro épocas portanto.
E aduziu:
- Como me adapto fácilmente a qualquer lugar, mesmo que não possa mais tarde ser o "motor"da equipa, confio que se há-de arranjar um lugarzinho mesmo a ponta, onde eu possa continuar a ser útil ao meu clube.
- Por fim falámos de seu filho, o pequeno João José que conta 8 anos e que denota já muita habilidade para o futebol.
- Parece que tem geito, sim. Gostava que ele viesse a ser avançado como eu.
- Mas a esposa de António Pedro revelou que o pequeno é arrojado quando se mete a imitar os guarda-redes. O pior é que não há calças que resistam aos ensaios do João José.