O pica pau

Se há coisas por quem eu tenho muito respeito, a Natureza, está no topo da minha lista.
Não pretendo aqui demonstrar quanta admiração eu tenho, por todas estas belezas, mas
apenas contar mais uma das histórias que ficaram gravadas na minha memória.
Existem fenómenos que não têm explicação para um simples mortal como eu.
Foi o seguinte:
Uma vez encontrei por acaso, num sucateiro, um poste de um candeeiro de iluminação
pública, todo ele em aço inoxidável.
Aqui no Canadá, quando no Inverno caiem tempestades de neve, esta última é limpa nos
passeios, com pequenos "caterpilars" que a empurram para a estrada, de modo a abrir
caminho para as pessoas poderem passar.
Muitas vezes, estas máquinas, difíceis de controlar, vão de encontro aos candeeiros de
iluminação pública, e claro com o choque, estes ficam tortos, sendo substituídos por
novos, e os estragados, são enviados á sucata, para serem vendidos a peso.
Quando eu vi um desses candeeiros pensei que sería o ideal, para colocar no meu
quintal, servindo de base a uma roldana, ligada a um cabo de aço coberto de plástico,
que por sua vez numa distância de cerca de 30 metros ligaría a outra roldana fixada
na casa, tendo acesso pela varanda, e que serviría par estender a roupa lavada, para
secar.
Assim sendo a roupa se deslocaría, sendo estendida a partir da varanda, na distancia
descrita anteriormente.
Até aqui, nada de anormal, mas como disse, esse poste de candeeiro era ôco, aberto em
cima (tem uma altura de 5 metros) com um buraco de mais ou menos 10 cm.
A partir da base, e a cerca de 40 cm, tem uma abertura retangular com uma
portinhola, onde se liga a electricidade, para a tal iluminação pública.
Claro que no meu caso, não havia fios nenhuns no interior, era apenas para suporte da
roupa estendida.
Certa vez, estava eu regando umas flores próximo do poste, quando ouvi um barulho
estranho vindo do interior desse poste de candeeiro.
A curiosidade, obrigou-me a encostar o orelha para melhor ouvir, e senti que estava lá
dentro talvez algum passarinho que tinha entrado por cima, caçando insetos, e depois
não conseguiu sair.
Fui então buscar uma chave para abrir a portinhola, mas por precaução levei uma
gaiola vazia, onde durante alguns tempos mantive em cativeiro um pintassilgo, comprado
numa loja de animais e importado da Itália.
Como não sabia o que iría encontrar no interior, comecei a abrir com cuidado e deixei
apenas uma pequena abertura, que me permitisse de ver o que estava lá dentro.
Vi que de facto era um passarito, que eu nunca tinha visto antes.
Era pequeno, com as penas brancas e pretas e tinha a cabeça cinzenta, como se usasse
boina.
Coloquei a abertura da gaiola, alinhada com o buraco do poste, e finalmente abri a
portinhola toda.
Assim que a abertura ficou grande o passarito saíu logo do interior do poste, mas ficou
dentro da gaiola.
Ele olhou para mim sem se assustar, mas notei que estava com fome.
Levei-o para a varanda, e dei-lhe pão, água, e alpista.
Quase nada comeu, mas bebeu muita água.
Não pretendia guardá-lo, eu apenas estava curioso de saber que espécie de passarito
era aquele e se cantava.
Pois bem, a resposta não tardou a vir, porque ele comecou a bater rápidamente com
o bico contra o poleiro da gaiola que era de madeira.
Pensei que devia de ser da família dos pica- pau.
Como a minha curiosidade estava satisfeita, abri-lhe a gaiola, dando-lhe a liberdade a
que tinha direito.
A pequena ave, saiu calmamente, sem se assustar comigo, e saltando aqui e acolá, foi-se
embora.
No outro dia, para meu grande espanto vejo no meu quintal, e próximo da minha mesa de
pique-nique, ( onde eu o tinha libertado) um bando dessas aves, que saltitavam
alegremente sobre a relva, e comiam alguns insetos que sempre existem nas flores e na
horta.
A minha presença, não pareceu amedrontá-los.
Depois desse dia, é muito raro ver essas aves aqui no meu quintal, vejo apenas uma ou
outra, no Outono.
Fiquei com a nítida impressão de que o bando inteiro me veio agradecer, eu ter salvo o
companheiro que estava preso...!!!
Quanto à portinhola, nunca mais a coloquei no poste, porque se mais algum passarito
entrar por cima, pode sair pela abertura inferior sem grandes dificuldades.