Poema escrito por Mário Oliveira em 16 de Novembro de 1953 no Barreiro

I

Se a musa não me trair
Escreverei sem pretensões
O que vi ao assistir
Ao jogo do Caldas - "Leões"

XIII

Bola cá e bola lá
Caldenses e Santarenos
Não fazem golos pois há
Nervos a mais, jogo a menos

XXV

E não tarda que se veja
Um caso bem desusado
Um Bispo a sair da igreja
Sem pálio e aleijado

II

Levado pela bondade
Desse amigo quase irmão
Dei entrada na cidade
E lá fui com o Zé João

XIV

Quinze minutos e é quando
Em jogada magistral
O extremo direito, Orlando
Faz um golo colossal

XXVI

Está tudo a pedir castanha
E a coisa é de tal maneira
Que o do apito se assanha
E expulsa o Castanheira

III

Um café com bagaceira
Num ambiente mundano
Nesse café de primeira
Da garagem Capristanos

XV

Ovação esfuseante
Ruido que tudo vence
Uma multidão vibrante
Aclama o seu Caldense

XXVII

Mas o homem do apito
Senhor Gouveia, pensou
Deu o dito por não dito
E o Castanheira ficou

IV

Na rua da Nazaré
Na pensão "Irmãos Unidos"
Pode dizer-se que é
Onde somos bem servidos

XVI

Eu afirmo sem desdouro
Já tremo, quase desmaio
Mas tenho fé nesse Louro
Sem ser ruço ou papagaio

XXVIII

E as coisa acabaram
Graças a Deus muito bem
E os "Leões" lá levaram
Trez a zero para Santarém

V

Irmãos Unidos, um nome
Pensão asseada e boa
É ali que morre a fome
E ali nasceu Malhoa

XVII

Alguns minutos depois
Em ritmo entusiástico
Passamos de um para dois
Com um golo eclesiástico

XXIX

Torna-se prazer infindo
Ver assim jogar a bola
Onde há um Ederlindo
Um Leandro, um Sarrazola

VI

Damas gentis e formosas
Beleza que nos encanta
Lembram a lenda das rosas
Da Rainha que foi Santa

XVIII

O Bispo sem reverência
Arrancou tal pontapé
Que pela sua violencia
Tocava os sinos da Sé

XXX

Um Bispo, um Anacleto
Taborda, Amaro e um Louro
O grande sonho dileto
Merecendo coroa de ouro

VII

Uma curta passeata
Coração ardendo em fogo
Eis-nos no Campo da Mata
P'ra assistir ao grande jogo

XIX

O grupo avança valente
Rijo e forte como um cedro
E eis que surge de repente
Um golo de António Pedro

XXXI

Wilson um grande primor
Um Orlando que é um génio
António Pedro um valor
Que até anda a gasogénio

VIII

Na cabina há fé, ardor
Disciplina entre bulício
Vê-se a mão de um treinador
Que sabe do seu ofício

XX

O entusiasmo a valer
Que reinava na assistencia
Não consigo descrever
Por falta de inteligência

XXXII

Agora o mundo não finda
Nem acaba o futebol
Há muita coisa a fazer ainda
P'ra arranjar lugar ao Sol

IX

Estrugem as primeiras palmas
Batem forte os corações
Há um frémito nas almas
Aproximam-se os "Leões"

XXI

Também dou palmas e grito
Não sossego, não me calo
Até que soa o apito
Indicando o intervalo

XXXIII

Direcção aprimorada
Um bom orientador
Equipa bem afinada
Mostrará o seu valor

X

Essas palmas tão vibrantes
Que encheram o campo inteiro
Mostraram aos visitantes
O Caldense hospitaleiro

XXII

Volta o jogo e a certeza
Que não nos foge a vitória
Fecha-se mais a defesa
E tudo o mais é uma história

XXXIV

Mas acho justo e humano
Que nuns versos sem primor
Não esqueça Artur Capristano
E seus colaboradores

XI

Agita-se a multidão
Numa fé que tudo arraza
E nova grande ovação
Acolhe o grupo da casa

XXIII

Mas um "Leão" da manada
Agita a juba e acorda
Ruge e manda uma patada
Que quasi esmaga o Taborda

XXXV

Eu, que sou um Barreirense
Garanto com emoção
Que já me sinto Caldense
Caldense p'lo coração

XII

Uns pontapés à baliza
Cumprimento ritual
E enfim à hora precisa
Começa o jogo afinal

XXIV

Wilson tem, depois azar
Talvez por ser capitão
Com um chuto no calcanhar
Lá fica a rolar no chão

XXXVI

Que o futuro para vós seja
Uma glória fagueira
É tudo o que vos deseja
O Mário de Oliveira