A acusação

Sempre que tento recordar as minhas memórias para transcrever aqui no computador,
procuro sempre que sejam histórias alegres, que possam divertir um pouco quem tenha
paciência para as ler, mas hoje espero que me perdoem esta minha ousadia, vou contar
um episódio triste.
Foi no ano de 1965, portanto eu tinha 19 anos.
Eu trabalhava numa empresa distribuidora de energia eléctrica em alta e baixa tensão
(SEOL) como electricista, estando portanto no início da minha carreira.
Nessa empresa havia vários departamentos, fazendo eu parte dos serviços tecnicos,
mas havia também o departamento administrativo, onde existia a secção do correio, que
era ocupada por apenas um empregado, cujo nome era Fernando.
(Não divulgo o nome completo propositadamente)
Ele era mais velho do que eu, já estava casado e tinha uma filha pequena, mas a
diferença de idades, não impedia que fossemos amigos.
Nós moravamos no Bairro dos Arneiros, na mesma rua, com a diferença que ele tinha
uma vivenda logo no princípio, enquanto que a dos meus pais, era a penúltima dessa
mesma rua sem saída, portanto cada vez que eu fosse para minha casa,
obrigatóriamente tinha que passar na frente da casa dele.
Andámos juntos várias vezes, ele tinha uma "Lambretta" e cheguei a aproveitar a
boleia (carona) para me deslocar para povoações próximas quando havia festas e
bailes.
Certo dia, recebo em casa um aviso (contra-fé) para me apresentar no posto da polícia
onde devia de "prestar declarações"
Há um ditado Português que diz "Quem não deve não teme" portanto eu até pensei que
essa convocação estivesse relacionada com o meu futuro ingresso nas Forças Armadas.
Pedi autorisação para me ausentar do trabalho, e desloquei-me até ao posto da polícia.
Fui recebido por um tal Silva, que era quem estava de serviço naquela hora.
Depois de me identificar, tomei conhecimento da razão daquela convocação, ou seja, eu
era acusado de ter roubado um fio de ouro no valor de uma quantia bastante elevada,
que pertencia á filha do Fernando.
É impossível descrever aqui o que senti naquele momento, ser injustamento acusado de
uma coisa, que nem em pensamentos me passou pela cabeça.
Eu acho que o mundo deixou de existir para mim, eu penso que o chão desapareceu sob
os meus pés, fiquei sem pinga de sangue, eu não acreditava no que estava a ouvir...!!!
Para complicar mais ainda, o tal policia Silva, mandou-me entrar para uma sala mal
iluminada, onde havia apenas uma velha cadeira.
Ele convidou-me a sentar, e no princípio ainda começou com palavras meigas, dizendo
que se confessasse a verdade, apenas seria feito um relatório, e depois podia saír dali.
Claro que a verdade era só uma, eu nunca roubei nada a ninguém.
Mais tarde, ameaçou-me que utilizaría o "cavalo marinho" (nome dado a um chicote)
para me bater, até eu confessar.
Aí eu comecei a ver a minha vida a andar para trás...
Entretanto o Silva saíu da sala, deixando-me sózinho.
Tudo isto durou cerca de 4 horas com interrogatórios de 15 minutos espaçados com
cerca de meia hora, sózinho dentro daquela sala medonha.
Devo de dizer que a certa altura, eu quase que caí na asneira de dizer que sim, na
esperança que me deixasse em paz, mas consegui resistir a essa tentação, entreguei o
meu destino a Deus, e nunca deixei de dizer a verdade, ou seja estava completamente
inocente.
Como disse antes, ao fim de 4 horas, mandaram-me embora, dizendo que voltariam a
convocar-me.
Desde o posto da polícia até ao meu trabalho, demorava cerca de 15 minutos, e acho
que foram os 15 minutos mais longos da minha vida.
Eu tinha muita vergonha quando passava por outras pessoas, pois tinha a nítida
impressão que todos olhavam para mim, como sendo um verdadeiro ladrão.
Quando cheguei ao trabalho, notaram que eu não estava bem, e perguntaram-me o que
tinha acontecido.
Expliquei o melhor que pude, mas então surgiu outro problema.
Fui suspenso do trabalho, assim como o tal Fernando, até que o caso fosse resolvido.
Um de nós estava a mais na empresa; ou eu como ladrão, ou ele como difamador.
Costuma-se dizer que Deus não dorme, e aconteceu um facto que resolveu a questão.
Lá na empresa, trabalhava também um senhor que se chamava Elias, e que era
desenhador e topógrafo.
A tia dele tinha uma casa de penhores, que é um estabelecimento onde as pessoas podem
entregar certos valores contra um empréstimo de dinheiro, até que mais tarde, quando
resolverem a questão financeira, possam recuperar outra vez essas coisas, contra um
certo valor superior ao emprestado.
O sr Elias, falou com a tia, forneceu os nossos nomes, e perguntou se algum de nós tinha
ído penhorar o tal fio de ouro.
A senhora procurou nos registos, e (Deus seja Louvado) o nome do tal Fernando, lá
estava escrito numa ficha que continha o famoso fio de ouro.
Foi mesmo o sr Elias, que forneceu estas informações á polícia e á SEOL.
Descobriu-se então, que o Fernando tinha o vício do jogo, e para pagar certas dívidas,
tomou a decisão de empenhar o fio e acusar alguém, que neste caso fui eu.
Fui readmitido na empresa, pagaram-me o tempo que não trabalhei, mas devo de dizer
que não ganhei para o susto.
É assim que se criam más reputações.
Se não fosse o sr Elias, talvez ainda hoje houvesse dúvidas sobre a minha honestidade.
Houve um colega, que se chama Alcides, quiz emprestar-me dinheiro para eu falar com
um advogado e apresentar queixa no tribunal...
Agradeci a oferta, mas não quiz, afinal prefiro a minha teoria, que é a seguinte:
Eu perdoo... mas não esqueço !!!