Água-pé

Um dos períodos da minha infância, que me deixou muitas saudades, foi a época das
vindímas.
Em Portugal, estas decorrem nos finais do mês de Setembro.
Eu adorava andar misturado com todo aquele pessoal que trabalhava na elaboração do
vinho.
Normalmente os trabalhos mais ligeiros, eram dados ás mulheres, ou seja cortar os
cachos das uvas das cêpas, que colocavam em baldes ou cestas.
Aos homens incubia o transporte destes recepientes até um outro maior, que tinha o
nome de "tina" sendo depois levado para o lagar, onde seriam esmagadas e prensadas,
para se lhes retirar o sumo, que depois de um determinado tempo de fermentação, se
transformava em vinho.
Na época da minha infância, quase todos os trabalhos ligados diretamente com o lagar,
eram feitos manualmente, embora me apeteça empregar o termo "pésalmente" pois era
aí que eu colaborava com o meu trabalho.
Quando a vindima acabava, e o lagar estava cheio de uvas, nós os meninos saltavamos lá
para dentro descalços, para pisarmos todas as uvas de modo que os bagos rebentassem.
Lembro-me que certas pessoas, cujos filhos eram asmáticos, os colocavam dentro do
lagar, a pisar as uvas, porque segundo uma crença popular, o gaz liberto no rebentar
dos bagos, e respirado por eles, era o suficiente para se curarem dessa doença.
Outra crença que atrapalhava bastante os adultos, era se alguma mulher estivesse em
período de menstruação, não estava autorizada a aproximar-se do lagar, pois segundo
eles diziam, o vinho estragava-se todo, apenas seria aproveitado para vinagre...
Enfim, eu hoje como adulto, não me acredito nestas crenças.
Á medida que as uvas iam sendo esmagadas, o sumo, cujo nome específico é "mosto" ía
escorrendo para dentro de um recepiente, onde depois era calculado através de uma
medida, cujo nome é "almude" (que equivale a 25 litros no sistema métrico) para depois
dar entrada em barrís.
Quando o mosto deixava de escorrer era o momento de começar a juntar todos os
cachos esborrachados á volta de um fuso, que depois de atadas com várias voltas de
uma corda muito grossa, para os manter no lugar, seriam então apertadas nesse fuso,
cujo conjunto se chamava prensa.
Quando já não saía quase mosto nenhum, a prensa era relachada, as cordas retiradas, e
com o resto do "ingaço" (nome dado depois de expremido) espalhava-se outra vez pelo
lagar, e misturava-se água, deixando esta mistura a fermentar durante uma noite.
A bebida saída desta operação, é um vinho muito fraco, com uma taxa de álcool
variando entre os 4º e 5º a que se dá o nome de "água-pé"
Foi esta a primeira bebida alcoólica que eu provei, e devo de dizer que gostava muito.
Normalmente, e um pouco antes do verdadeiro vinho, a "água-pé" está pronta a ser
bebida, logo no princípio de Novembro.
Esta bebida era destinada ao consumo caseiro, e para dar aos "servos" que é o nome
dado aos trabalhadores rurais.
Por uma razão que ainda hoje desconheço, era expressamente proibida, a venda da
água-pé, e nessa época, as forças policiais, eram utilizadas como inspectores, para o
absoluto cumprimento das leis, punindo severamente com pesadas multas, quem fosse
apanhado a vender esta bebida.
No entanto, por ser muito apreciada, e muito procurada, certos estabelecimentos
recorriam a estratagemas, para contornar a lei.
Foi então, que certa vez, quando eu era estudante no domínio de eletricidade, e na
companhia de um companheiro, o Carlos Manuel, nós fomos a uma taberna, cujo
proprietário nos conhecia (ele não vendia a qualquer um, com medo das denuncias) para
beber um copo ou dois dessa maravilhosa bebida.
O barríl da água-pé, estava escondido numa sala grande, sem janelas, cuja porta de
entrada era um armário que continha garrafas, expostas aos clientes, mas que se movia
sobre dobradiças.
O sr António (dono da taberna) deslocou o armário para entrarmos, e assim podermos
"matar o desejo" .
Dentro dessa sala havia duas mesas e várias cadeiras, mas para nossa grande surpresa,
uma das mesas, estava ocupada por 4 agentes da polícia, que calmamente saboreavam a
água-pé.
Reconheci um que tinha fama de ser mais ruim que uma cobra.
Perante o nosso espanto, um deles disse-nos:
Caros amigos, vocês nunca vieram aqui, nem nunca viram nenhum policia beber água-pé,
entendido ?....
Claro que aceitámos a proposta, bebemos duas vezes cada um, e saímos.
A partir deste día compreendi o significado da palavra “corrupção”