A primeira namorada

Tenho a certeza que todos nós, mesmo se o passado se encontra já a algumas luas de
distância, temos na memória o nosso primeiro amor, ou melhor, aquilo que pensávamos
ser qualquer coisa maravilhosa e eterna.
Quando eu era menino, Portugal era governado por uma ditadura, cujo primeiro
ministro nessa época, era António de Oliveira Salazar.
Foi portanto a época salazarista.
Por decreto governamental, as escolas primárias eram de sexos separados, quer dizer,
havia escolas só para rapazes, e outras só para as meninas.
Quando eu tinha a linda idade de 10 anos, frequentei uma escola a que vulgarmente se
chamava a “escola da praça do peixe”.
Este nome devia-se ao facto de existir um grande mercado ao ar livre, cujo comércio
era exclusivamente a venda de peixe.
No topo norte desse mercado havia um prédio, onde o rés-de-chão (térreo) era
ocupado por uma drogaría, e no andar superior era a escola primária masculina.
No topo sul quase por detrás de um cine-teatro (Pinheiro Chagas) havia a escola
feminina.
Geográficamente falando, cerca de 4 ruas para o nordeste, encontrava-se um outro
mercado, também ao ar livre, onde se vendiam outro tipo de mercadorias, como por
exemplo, hortaliças, batatas, feijão, ovos, flores, enfim tudo que ainda hoje as donas de
casa (e não só) necessitam, para prepararem refeições com géneros frescos.
Voltando à minha história, durante a manhã, nós, os alunos tínhamos um intervalo entre
as aulas que durava 15 minutos.
É normal que na nossa cabeça, apenas pensávamos em brincar, mas se a lei proibía os
dois sexos de frequentar as mesmas salas de aulas, nada nos impedía, durante os
intervalos, de nos encontrarmos na rua, e brincarmos juntos.
Foi então que arranjei uma namorada que frequentava a escola no topo sul.
Ela chamava-se Helena, mas para mim, era a “minha Lenita” 
Acontece que um dos meus companheiros, também a queria namorar, e a Lenita, resolveu
fácilmente o problema; ela disse que aquele que lhe oferecesse uma flor, seria o
namorado dela.
Como ía-mos nós arranjar flores para oferecer ?
Nós eramos adversários, mas não inimigos, portanto combinamos um estratagema...
Iríamos ao mercado das flores e roubaríamos a que tivesse mais descuidada.
E assim fizemos, todos os dias, quando tocava a campaínha anunciando o inicio do
intervalo, nós saíamos correndo para ir até ao mercado roubar a melhor flor, e voltar
para a escola da Lenita, onde ela nos esperava.
Então foi assim: certos dias era eu o namorado, outras vezes era o meu companheiro
(não me recordo bem o nome dele, penso que era Gil) aquele que chegasse primeiro,
seria o namorado naquele dia.
Tudo funcionava bem até que um dia, depois de termos uma flor cada um, corríamos o
mais rápido possível, para chegar primeiro.
Claro que havia sempre um empurrão para cá, outro para lá com o objetivo de
atrapalhar a corrida do adversário.
Quando corríamos no mercado do peixe, havia muitas caixas de madeira no chão, cheias
de peixe, e quando eu estava mesmo ao lado de uma que continha pedaços de raia, que é
um peixe coberto por uma camada gelatinosa, o meu companheiro, deu-me um encontrão,
enviando-me todo inteiro, para dentro dessa caixa.
No momento da queda, ainda consegui agarrar-me á camisola dele e retive-o para ele
não chegar primeiro até á Lenita.
Consegui levantar-me e continuei a correr, chegando eu em primeiro lugar...
Mas ó desilusão das desilusões, quando quiz oferecer a minha flor, ela estava toda
estragada, além que eu estava num estado lastimoso, com a roupa toda suja do peixe, e
cheirava mal.
A Lenita, fez uma cara muito feia, e disse-me, que nunca mais me quería para namorado,
que era vergonhoso aparecer naquele estado á frente de uma donzela...
Aceitei a decisão dela, e fui-me embora, sentei-me nas escadas do cine-teatro Pinheiro
Chagas e aí chorei... e chorei... e chorei, aquilo que eu pensava ter sido um grande
desgosto de Amor...!!!