Refeição em S. Martinho do Porto

Já aqui contei uma história (A influência dos mais velhos) que se passou quando eu
tinha 15 anos, e fazía campismo em S. Martinho do Porto.
Este episódio da minha vida também se passou nessa praia, mas cerca de 3 anos depois.
Na minha adolescência, além de ainda não existirem discotecas, eram raros os locais
onde a juventude pudesse confraternizar.
As grandes cidades sempre tinham mais divertimentos, mas nós, nas terras mais
pequenas, tínhamos que inventar e improvisar  em estreita colaboração entre amigos.
Eu, por exemplo tinha um pequeno "gira-discos" da marca Philips, mas poucos discos,
outros tinham discos que tocavam num móvel com tampa, composto também por rádio de
válvulas, e que era difícil de transportar, outro ainda tinha uma casa grande com uma
garagem, e os pais não se importavam que organizássemos bailes nessa garagem, na
condição de não estragarmos nada, e no fim, deixarmos tudo bem limpinho.
Durante a época de estudos, e nos fins de semana em que não havia futebol, havia
portanto um grupo de moças que se juntavam a nós nessa garagem, e entre todos,
organizávamos um lanche, e ao som de discos de 45 rotações, dançavamos as músicas do
Roberto Carlos, Ádamo, Paul Anka, Brenda Lee......etc, etc. etc.
Não pretendo fazer comparações com a juventude de hoje, sei que são épocas
diferentes, mas posso garantir, que existia entre nós uma amizade pura, as malditas
drogas, não existíam, e a terrível praga a que deram o nome de SIDA (AIDS), ainda
não tinha saído dos laboratórios ingleses.
Quando chegava a época das férias, interrompíamos este tipo de divertimentos, e
preferíamos o contacto com o mar, deslocando-nos até uma das praias mais próximas,
que neste caso foi S. Martinho do Porto.
Havia vários transportes disponíveis, mas o que mais utilisámos era o combóio ( trem)
No verão  logo de manhã cedo, havia um que se chamava o combóio dos banhos, e era
composto por algumas carruagens cujos bancos eram de madeira, que mais pareciam
bancos de jardim.
Antes de ser substituída por uma máquina a Diesel, (automotora) a locomotiva era a
vapor, (do género da Maria Fumaça), e as carruagens íam sempre repletas de
passageiros.
Nunca soube se se chamava combóio dos banhos por transportar banhistas, ou se era
por ficarmos todos a cheirar a uma mistura de vapor e fumo que entrava pelas janelas
das carruagens, e nos obrigava a tomar banho, para nos desembaraçarmos desses
cheiros.
Certa vez, eu e 2 amigos, o João e o Zé Fiteira, fomos acampar durante uma semana,
num terreno junto á praia, que era cedido gratuitamente pela Junta da Freguesia.
Como o dinheiro não abundava muito nas nossas carteiras, os restaurantes ficavam fora
das nossas possibilidades financeiras, por isso nós preparávamos as nossas refeições.
Fazíamos comida simples, num pequeno fogareiro a petróleo, próprio para quem faz
campismo.
Na maioria das vezes eram batatas cozidas, acompanhadas sempre por qualquer coisa,
como por exemplo atum em conserva.
O pai do Zé Fiteira era um pescador viciado.
Ele verificava sempre o horário das marés, e pouco importava se a melhor hora era ás
2 ou 3 da manhã, ele ali estava preparado com a sua cana de pesca, os anzóis e todo
aquele eqipamento que lhe permitisse divertir-se.
Aconteceu uma noite, ele ter ido ter conosco, e enquanto nós dormía-mos, o sr Abel
pescava.
Ele teve o cuidado de quando foi ter conosco, ter comprado pão, e também sardinhas
que era naquela altura considerado como comida de pobres e que sería para uma das
nossas refeições.
Lógicamente, no dia seguinte, enquanto nós já andávamos pela praia, o sr Abel, dormia.
Durante essa nossa estadía, não tivemos dificuldade em travar conhecimento com 3
moças com idades aproximadas ás nossas, e que também se encontravam de férias
(em casas alugadas) na companhia das respectivas famílias.
Pouco importa se eram bonitas ou feias, gordas ou magras, nós também éramos o que
éramos, não nos importava a beleza, apenas a camaradagem interessava.
No dia em que o sr Abel estava dormindo dentro da tenda, nós estávamos cá fora,
deitados na areia, conversando com as tais moças.
Entre várias coisas que falámos, elas perguntaram o que sería o nosso almoço.
Naquela época havia uma falsa noção de que quem comia bifes com batatas fritas era
rico.
Não foi portanto surpreza nenhuma, que nós, para impressionármos as moças
respondemos: "É bifes com batatas fritas".
Quase simutlâneamente, após termos dito esta frase, o sr Abel, que se calhar tinha
acordado com fome, alheio á nossa conversa, meteu a cabeça fora da tenda, e olhando
na nossa direção, disse : "Óh Zé, já botáste o sal nas sardinhas ?"
Pois foi assim, coitado do sr Abel, sem querer... espantou-nos a caça,....
As moças ficaram a saber, que afinal, éramos uns milionários sem vintém...!!!