A peça de teatro

Quando começo a recordar a minha juventude, fico feliz por me lembrar de momentos
agradáveis, no entanto a minha vida, nem sempre foi fácil.
Os estudos ocupavam uma grande parte do meu tempo, mas também tinha entranhado no
meu ser, que a diversão devia de fazer parte da vida.
Experimentei vários tipos de diversão, e é sobre uma delas que falarei hoje.
O teatro;
Na escola onde eu estudava, havia um grande anfiteatro, que para nós os estudantes
funcionava como ginásio, onde eram praticados os desportos interiores, aulas de
educação física, servia de salão de festas, que eram organizadas durante a época
escolar, etc. etc,
Esse mesmo ginásio também chegou a ser cedido para apresentar teatro.
Existía ns Caldas da Rainha uma companhia de teatro amador, que tinham algumas peças
encenadas, e era nesse anfiteatro que as peças eram apresentadas ao público.
O teatro não é apresentado apenas com os actores que interpretam a peça, pois que
por detrás da cena, existe uma grande equipa, que assegura o bom funcionamento de
tudo que se passa.
Volto a dizer que eram todos amadores, mas tentavam fazer um trabalho profissional.
Entre os elementos que compõem a equipa, havia dois electricistas, mas um dia houve um
que por motivos de saúde, não se pode apresentar, então como eu era nesse ano aluno
finalista, o sr Coelho, chefe do grupo, convidou-me a substituír o electricista que não
podia estar presente nessa noite.
Imagine a minha alegria por ter recebido esse convite... claro que aceitei logo.
O meu trabalho consistía a comandar através de um quadro com muitos interruptores,
alguns projetores com umas luzes muito fortes, que deviam de se acender e apagar na
sala onde estavam os espectadores, e isto ao mesmo tempo, que o outro electricista,
fazia funcionar um gravador de som que tinha duas bobinas muito grandes, e onde
estava gravado o som de alguns trovões..
Portanto a certa altura da peça, quando ouvíamos um determinado diálogo dos actores,
sincronisávamos as luzes com o som dando a ilusão perfeita que havia uma verdadeira
trovoada.
Não foi um grande trabalho técnico da minha parte, mas fiz o que foi necessário, e a
peça decorreu muito bem.
Alguns actores desempenhavam mais que um personagem, e para isso era necessário,
virem cá atrás, para mudarem de roupas.
Numa dessas mudanças, (não havia salas especiais, era tudo próximo de onde tinha-mos
os quadros eléctricos) uma moça, talvez com a idade de 20 anos, sem complexos de
espécie alguma, despiu-se ficando apenas em calcinhas e soutiã, para depois vestir
outra roupa.
Foi impossível para mim desviar o olhar, daquela beldade, mas reparei, que um outro
actor, quando se preparava também para mudar de roupa, aproveitou o facto dela
estar despida, deu-lhe uma palmadinha no traseiro, dizendo:
"que bundinha tão rochuchuda..."
Aquilo foi o suficiente para me despertar o desejo de ser actor também, porque eu
pensava que assim, podería dar a minha palmadinha de vez em quando.
A oportunidade surgiu quando no Bairro dos Arneiros, onde eu morava, criaram um
grupo de teatro amador.
Sem descrever todas as passagens que tive de percorrer até chegar a actor, depois de
entrar no grupo, e após 3 meses de ensaio, chegou o momento tanto ansiado por
mim, de poder finalmente representar em público.
O meu papel, limitáva-se a ligeiras aparições no palco e dar réplica a outro actor, o
Fernando Guerreiro, que devia de ter naquela altura, talvez 35 anos.
Tudo decorreu bem, o público gostou, mas não havia "bundinhas" para dar uma palmadinha.
Esta peça era apresentada num grande barracão gentilmente cedido pelo dono de uma
estância de madeiras que estava estabelecida nesse Bairro dos Arneiros.
A representação era feita apenas nas 6ª-feiras e sábados á noite.
Certa vez, precisamente num sábado, o Fernando apareceu para a representação da
peça, mas notei nele algo de diferente...
Afinal, ele tinha andado a provar umas pingas, e não tinha sede nenhuma.
No teatro, o diálogo entre dois personagens, faz-se através das "deixas" quer dizer a
"deixa" é uma palavra chave, ou seja, eu apenas podia falar, quando o meu interlocutor
dissesse uma palavra integrada no diálogo, depois era a minha vez de falar, até chegar
à minha "deixa" e era sempre assim.
Portanto enquanto o Fernando não me desse a "deixa" eu não podia falar...
Acontece que ele devido ao efeito do álcoól, esqueceu-se do texto...
O que eu havia de fazer meu Deus ?
A peça era um drama triste, mas devido ao esquecimento do Fernando, eu tive que
improvisar... ora fazendo isto, as "deixas" sumiram.
O "ponto", que é uma pessoa que está no palco, sentado num nível mais baixo, e que nós
apenas lhe vemos a cabeça dentro de uma caixa, está sempre a ler o texto para nos
ajudar....
Ele bem gritava, mas nós estávamos a gostar mais da improvisação do que o verdadeiro
texto.
Volto a repetir, que devia de ser um drama triste, mas através da improvisação, este
acto tornou-se uma comédia hilairante.
No cenário havia um sofá, onde o Fernando estava sentado, e eu devia de me manter
respeitosamente em pé na frente dele...
Até parece que o estou a ver, andando a gatinhar á volta desse sofá, e depois ás
escondidas do público ele ria, sem se conseguir controlar, tal como eu.
Como o riso é contagiante, todo o mundo, quer espectadores, quer o resto da equipa
teatral, não se conseguiram conter, acabando tudo num riso geral.
Quando o pano fechou, o público aplaudiu ruidosamente, apreciando o que tinhamos
feito, mas havia uma coisa que eu desconhecía.
O autor dessa peça estava presente a cada interpretação, porque ele era pago cada
vez que houvesse espectaculo, portanto o facto de ter-mos modificado o texto, era
considerado uma ofensa muito grave.
A peça era dele tal como a tinha escrito, portanto ele foi o único que não riu.
Resultado:
Não dei nenhuma palmadinha em "bundas" e ainda por cima, apesar de não ser o
principal culpado, fui expulso do grupo, por não respeitar os direitos de autor...!!!