O vinho do Porto

Quando começo a escrever as recordações da minha infância, ela está mais ou menos
clara no meu espírito, mas é sempre muito difícil, transmitir através de frases
escritas, a mentalidade de adolescente que eu tinha nessa época.
Eu mesmo, me pergunto como foi possível ter feito certos gestos, como os da história
de hoje.
Devo de dizer que a idéia não foi só minha, foi de um grupo de amigos, mas fui eu o
principal actor.
Nós eramos um grupo de amigos a que mais tarde demos o nome de "Totocampistas" e
gostáva-mos muito de confraternizar.
Então depois do jantar, era costume encontrármo-nos num local adjacente a uma
padaría, na Rua Sebastião de Lima (propriedade do pai de um dos meus companheiros)
e que servia para guardar a lenha que aquecia os fornos de cozer o pão.
Nesses encontros falávamos de tudo e de nada, e certa vez, alguém do grupo disse:
Sería muito mais agradável se nos nossos encontros, tívessemos uma bebida para írmos
saboreando de vez em quando...
Logo um outro disse:
Apoio essa ideia, e também sería bom uns bolos para acompanhar...
Boa idéia, mas quem já viu simples estudantes com dinheiro, para comprar essas coisas?
Foi aí que a nossa imaginação começou a entrar em acção, e lançamos no ar uma ideia
maluca, que acabou por ser o tema desse nosso encontro.
Cada um deu a sua opinião e lá chegámos a um acordo final.
Mais uma vez volto a dizer aqui, que não tínhamos ideias más, apenas nos queríamos
divertir, não conhecía-mos o que eram drogas... e nunca nos passou pela cabeça
apoderármo-nos do que não nos pertencia.
Foi o seguinte:
Tería-mos de arranjar um "voluntário" que através se certas artimanhas, nos
oferecería uma garrafa de vinho do Porto, ou outra bebida semelhante, acompanhada
de uma caixa de biscoitos, ou bolinhos secos.
As nossas idades eram talvez 16 ou 17 anos, portanto já se começáva a desenvolver no
nosso corpo aquela terrível doença que se chama "desejo sexual", mas as ocasiões de
concretizar esse desejo, eram raras.
Ainda estávamos na fase da luta "5 contra 1"
Pois bem, eu conhecia um amigo que se chamava Vadim, que não fazía parte deste grupo,
e o pai dele tinha um café, portanto ele vendia vinho do Porto e bolos.
Convenci o Vadim, que havia uma moça que gostava de fazer amor comigo, mas para os
pais dela não desconfiarem de nada, ela tería de sair de casa acompanhada por uma
amiga, mas essa amiga, também queria dar uma "cambalhota", e sería eu que tinha de lhe
arranjar um moço de confiança.
Eu perguntei ao Vadim se ele estava interessado, e claro, ele respondeu
afirmativamente, abrindo os olhos de contente de poder transar pela primeira vez na
vida dele.
Então convencí-o de que para agradar ás moças e para apresentação antes de passar
aos actos, sería necessário talvez um pequeno convívio com uma garrafa de Porto,
acompanhado de uns bolitos...
Tal como eu prevía, ele disse que não havia problema nenhum, o pai dele tinha muita
mercadoría lá no estabelecimento.
Depois de acertar os pormenores, lá combinámos o local do encontro.
Claro que não havia moças nenhumas, isto foi tudo imaginação minha.
No nosso grupo, havia um moço que se chamava Carlos Manuel Albuquerque de Carvalho
e já tinha uma voz de adulto.
Então fizemos o seguinte :
O grupo, menos eu, estavam escondidos, num local mal iluminado, coberto por grandes
árvores, e que era conhecido naquela altura por "Bêco Cupido"
Eu chegaría com o Vadim, levando a garrafa e os bolos num saco, para oferecer ás
"moças", e quando lá chegássemos, eu devía de assobiar uma música da época, que sería
respondida por outro assobío.
Assim fizémos mas quando nos apróximamos do local combinado, em vez das moças, o
grupo saltou para a estrada, e o Carlos Manuel gritou: “
" Ah seus malandros, são vocês que querem tirar a honra da minha filha ?"
Neste momento, e sempre dentro dos planos previstos, eu larguei o saco no chão, com o
produto da brincadeira, e gritei para o Vadim :
"Foge, alguma coisa falhou, é o pai dela, e vai matar-nos"
O Vadim, não pensou duas vezes, deu meia volta e fugiu, gritando de medo.
Eu também corri um pouco, para o acompanhar, mas tive que parar, pois estava a
morrer de rir.
Nem nessa noite, nem nos dias seguintes eu vi o Vadim.
Dirigí-me então para o nosso local, onde o grupo se rencontrou e saboreá-mos aquela
deliciosa bebida, acompanhada com os biscoitos.
Claro que o riso esteve sempre presente !
Mais tarde contei a verdade ao Vadim.
Ele não se zangou comigo, mas ficou triste por ter caído como um patinho !!!