Uma lição de vida

Certa vez em 1970, ao serviço do exército português, eu encontrava-me em Timor
oriental.
Esta ilha encontra-se geográficamente situada no arquipélago indonésio, e próximo da
Austrália.
Não me recordo em que dia da semana isto aconteceu, mas fui á caça.
Qualquer caçador experiente, para a pequena caça, expecialmente aves, utiliza uma
espingarda de cartuchos, pois que após o disparo, o chumbo espalha-se, e assim há mais
possibilidades de se atingir o alvo.
Mas eu não tinha, nem experiência, nem arma, então, com autorização utilizei uma arma
do quartel.
Quando se está no exército, utiliza-se armas que se carregam com balas.
A que me foi emprestada, era uma espingarda da marca "Mauser" de fabrico alemão e
utilizada durante a 2ª guerra mundial.
Esta arma era de uma precisão incrível, e tinha uma força extraordinária.
A coronha tinha de ser bem apoiada contra o ombro, senão causava ferimentos graves,
devido ao disparo.
Para dar uma ideia da força, a bala disparada, se não tivesse nenhum obstáculo pela
frente cairía  10 km. mais longe do local onde o disparo foi efectuado.
Bem, este vosso narrador foi muito feliz com a espingarda ás costas convencido que
traría carne para algumas refeições.
O destino levou-me até um grande bambusal, onde vi que havia aves com aspecto de
poderem ser comidas, disseram-me que eram galinhas bravas.
Coloquei-me em posição de tiro, centrei o alvo, e a bala partiu.
Nunca soube se passou entre as penas, ou mais ao lado, porque não matei nada.
Após o disparo ouvi um barulho de gritos ensurcedores, que vinham de um grupo de
macacos, que olhavam para mim.
Na minha ideia havia um que se estava a rir, de eu falhar o tiro.
Como as aves em vez de fugirem, apenas se deslocaram entre os bambus, tornei a
preparar a espingarda e recomecei, mas o resultado foi o mesmo... nada.
Outra vez o mesmo barulho dos macacos, e um deles dava saltos e mostrava-me os
dentes.
Pensei assim: estás-me a gozar ?
Falhei a galinha mas a ti não falho.
Apontei a arma para o macaco, o tiro partiu, e o macaco caíu no chão morto.
Assim que isto aconteceu, fez-se um silencio total, e desta vez era eu que ria, mas o
pior estava para vir...
Foi então que reparei que a colónia completa dos macacos, (talvez uns 40) num silencio
profundo, desceram e cercaram o morto completamente cheio de sangue.
Então carregaram-no e com uns gemidos que metia dó ouvir, levaram-no, mas á medida
que se afastavam íam olhando para mim, o criminoso que sem nenhuma razão aparente
tinha morto talvez o chefe do grupo.
Foi então que fiquei com a noção do terrível crime que eu tinha cometido.
Porque razão eu matei o macaco ?
Que mal ele me tinha feito ?
Onde estava o respeito pelas outra vidas ?
Não era um ser humano, mas sería isso suficiente para desprezar uma vida inocente ?
O meu sorriso transformou-se então num desgosto que me persegue até ao fim da minha vida.
Ainda hoje, depois de tantos anos passados (isto aconteceu em 1970) a cena está bem
clara nos meus olhos, e ainda não encontrei a resposta a esta pergunta:
Porque razão eu matei o macaco ?
A única coisa que aprendi e mantenho, é que todas as vidas são importantes, e pouco
importa as circunstâncias, devem de ser poupadas até que um Ser Superior as chame.